segunda-feira, janeiro 22, 2007

71 Anos!!!

Parabéns, mãezinha. Sei que não tens computador e sei que não sabes mexer em computadores, nem sabes que eu tenho um blog, nem sabes o que é um blog, nem sabes tantas outras coisas que nos teus 71 anos nunca tiveste oportunidade de saber... Por isso sei que nunca vais ler isto, mas também não faz mal, porque eu também sei que se tu não sabes isto que eu vou escrever é porque não o sentes e se não o sentes é porque eu não to consegui demonstrar... Não foste uma mãe fácil, por isso sempre te procurei agradar em vez de confrontar; Sei que te desiludi muitas vezes, mas 4, tu não esqueceste e por isso eu nunca consigo sentir-me em sintonia contigo... 1ª Menti na escola por causa do dinheiro do Luís (sentiste desilusão pela vergonha que te fiz passar na sala de professores) 2ª Casei sem missa com um ateu (sentiste desilusão porque os teus convidados estavam à espera de comungar) 3ª Deixei o Carica e vivo com o Carlos (sentiste desilusão porque as tuas amigas não têm filhas que vivem juntas) 4ª Não vou à Missa (sentiste desilusão porque falhaste como mãe e não me conseguiste ensinar a ter fé) Como é possível gostarmos tanto uma da outra mas termos um muro erguido entre nós que nunca conseguimos derrubar? Porque somos diferentes... não há nada a fazer. Se sentisses desilusão porque a mentira me podia fazer perder a confiança que tu e os meus amigos tinham em mim; Se sentisses desilusão porque o meu casamento não foi íntimo como o do mano (teve comunhão) tal como eu tinha pedido na véspera ao Pe. Pedro, porque ele se "atrapalhou" e esteve mais de uma hora dar os "TEUS" recados à Família dos Ateus; Se sentisses desilusão por eu ter sido infeliz tantos anos até ter coragem para deixar o Carica e por não poder casar com o Carlos; Se sentisses desilusão porque na Missa, onde tu gostarías que eu fosse, as pessoas (como tu)não me aceitam porque eu vivo em pecado! Então eu conseguia dizer-te claramente que te amo, que me perdoes por ser tão ríspida contigo, por me faltar tantas vezes a paciência contigo; porque se as tuas desilusões fossem por MIM, tu tinhas esquecido porque me tinhas perdoado. Mas tu não perdoaste, porque não esqueceste, porque as desilusões não foram por MIM, foram sempre por TI, porque te deixei mal... Preocupa-me ver-te envelhecer tão rapidamente e não haver carinho entre nós. Há amor, mas não há carinho. Por isso não te consigo dizer o que sinto, pois sei que era mais um desgosto que te dava. Definitivamente os nossos sentimentos não se cruzam. És a pessoa mais prestável que conheço, que mais se sacrifica pelos outros; mas nunca me conseguiste entender... Os filhos dos outros é que são perfeitos. Nunca te inibiste de mo dizer constantemente... Terei eu para ti alguma virtude? Será que alguma vez me fizeste um elogio? Será que nunca tiveste orgulho em mim? Eu nestes teus 71 anos queria dizer-te que tenho orgulho pela minha mãe que saiu da Santa Terrinha aos 20 anos com um marido que a enfiou num quarto alugado em Lisboa, com a Senhoria a tomar conta enquanto ele fazia longas viagens de barco. Não imagino a solidão que deves ter sentido. E o medo?! Depois foste para a Ota e aos 25 foste mãe do mano, aos 27, nasci eu; e acho que apesar de tudo, criaste-nos e educaste-nos como pai e mãe. Nunca nos faltou nada, nem umas chineladas no rabo, nem nada. A mim também me assusta o amanhã da Leonor, mas ela é um ser deste mundo, não é minha. Não quero que ela seja isto ou aquilo para a exibir como minha obra. Quero impedi-la de fazer muita coisa porque tenho medo que ela se arrependa, que ela sofra, que lhe aconteça qualquer coisa; mas quando ela estiver feliz eu quero ser a primeira a quem ela vem contagiar de felicidade porque eu quero que tudo o que ela faça seja para ela. Se aos 40 anos ela der uma cambalhota e vier ter comigo e me disser: "Mãe, mudei isto na minha vida porque não estava feliz". Se eu vir brilho de felicidade nos seus olhos eu sei que também vou ficar feliz... Era só isso que eu gostava, mãe, que tu visses o brilho dos meus olhos! Como o meu pai (que tão pouco tempo viveu comigo) viu! Amo-te! na mesma...

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